Tecnologia

IA nas urnas: o Brasil enfrenta o maior desafio tecnológico de sua história eleitoral

A eleição de outubro de 2026 não será apenas uma disputa por cargos. Será, antes de tudo, um teste para a democracia brasileira diante de algo que não existia em eleições anteriores na mesma escala: a inteligência artificial capaz de fabricar mentiras convincentes, personalizar discursos e simular candidatos com realismo perturbador. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) percebeu o risco e agiu. As 14 resoluções aprovadas para disciplinar o pleito representam o esforço mais abrangente já feito no Brasil para regular o uso da tecnologia em campanhas eleitorais.

O crescimento acelerado da desinformação política impulsionada por inteligência artificial levou o TSE a reforçar as regras para propaganda digital nas eleições de 2026. As novas normas ampliam restrições introduzidas em 2024, quando a Corte proibiu deepfakes, determinou a rotulagem de conteúdos sintéticos e vedou a criação de candidatos virtuais. Agora, o tribunal foi além. SITEPD

A lei seca da IA

Entre as medidas mais concretas está o que especialistas chamaram de “lei seca da IA”. Pelas novas regras, fica proibida a publicação, republicação ou impulsionamento pago de novos conteúdos sintéticos produzidos ou alterados por IA no período de 72 horas antes do pleito e 24 horas depois das eleições. A lógica é simples: o momento mais sensível do processo eleitoral precisa de proteção reforçada contra manipulações que o eleitor não teria tempo de verificar antes de votar. Tribunal Superior Eleitoral

Além disso, as resoluções estabelecem que sistemas de IA não poderão recomendar, ranquear ou priorizar candidatos, partidos ou campanhas, mesmo que a solicitação parta do próprio usuário, o que se aplica a mecanismos de busca, chatbots e assistentes virtuais. Outra inovação importante é a exigência de planos de conformidade das plataformas digitais. Esses planos funcionam como instrumentos de prestação de contas por parte das empresas de tecnologia. SITEPDdesinformante

O desafio da fiscalização

As regras existem, mas a dúvida que paira é sobre a capacidade real de fazê-las valer. O especialista em direito eleitoral Luiz Eugênio Scarpino Junior, pós-doutorando na Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da USP, avalia que as mudanças representam uma evolução das medidas adotadas nas últimas eleições, mas reconhece que desde 2024 a Justiça Eleitoral já demonstrava dificuldades de fiscalização do uso da inteligência artificial nas campanhas. Jornal da USP

O cenário político que envolve a disputa presidencial agrava o contexto. Os pré-candidatos à Presidência têm intensificado críticas ao STF, e uma pesquisa do Datafolha divulgada em junho indicou que 75% dos brasileiros avaliam que os ministros do STF têm poder demais. Nesse ambiente polarizado, o risco de que a desinformação seja usada como arma estratégica é real e imediato. CNN Brasil

O Brasil enfrenta, portanto, um desafio duplo: regular a tecnologia sem sufocar o debate legítimo, e garantir que as regras aprovadas pelo TSE não fiquem apenas no papel quando a campanha esquentar de vez.

Fontes: TSE | Jornal da USP | Agência Lupa | CNN Brasil | Ponto na Curva

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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