Arquitetura bioclimática ganha espaço em novos projetos
Elena Vorenska
4 min de leitura
A designer de interiores Daugliesi Giacomasi Souza, fundadora da DGdecor, tem acompanhado um movimento que já aparece em boa parte dos projetos residenciais recentes: o uso do clima local como estratégia de projeto, e não como correção feita depois que a obra fica pronta e os problemas de conforto aparecem no dia a dia.
Ventilação cruzada, brises, cobogós e orientação solar estudada deixaram de ser recursos raros, ligados a poucos escritórios especializados, para se tornar parte do repertório comum de quem projeta casas hoje. A mudança acompanha uma demanda crescente por conforto térmico sem depender só de ar-condicionado ligado o dia inteiro, especialmente em cidades onde o verão se estende por boa parte do ano.
Da correção posterior à estratégia de projeto
Durante décadas, o conforto térmico foi tratado como problema de instalação: se a casa esquentava demais, a resposta era colocar mais um aparelho de ar-condicionado. Essa lógica resolve o sintoma na hora, mas mantém o gasto de energia alto durante toda a vida útil da edificação, sem tocar na causa real do desconforto, que costuma estar na implantação.
A arquitetura bioclimática inverte essa ordem, e Daugliesi Giacomasi Souza sinaliza esse movimento como uma mudança de mentalidade dentro do próprio processo de projeto: o clima entra na conversa desde o estudo de implantação, ao lado de programa e orçamento, não como item adicionado às pressas no fim da obra.
Ventilação cruzada, brises e orientação como recursos concretos
Ventilação cruzada depende de aberturas posicionadas em lados opostos ou perpendiculares do ambiente, permitindo que o ar entre por um ponto e saia por outro, renovando o espaço sem qualquer equipamento elétrico. Brises e cobogós filtram a luz direta e reduzem o ganho de calor pelas fachadas mais expostas ao sol da tarde.

A orientação solar completa esse conjunto: dormitórios voltados para exposições mais amenas tendem a manter temperatura mais estável ao longo do dia, enquanto áreas de convívio recebem luz direta protegida por elementos de sombreamento. Juntos, esses recursos reduzem a dependência de climatização artificial sem exigir tecnologia cara, complexa ou difícil de manter ao longo dos anos.
Clima tropical favorece, mas exige ajuste fino
O clima predominante em boa parte do Brasil favorece soluções bioclimáticas, já que sol e ventos estão disponíveis na maior parte do ano em praticamente todas as regiões. Isso não significa, porém, que qualquer combinação de brise e ventilação cruzada funcione igual em qualquer lugar: cada região pede um ajuste próprio de proporções, ângulos, materiais e até vegetação de entorno.
Daugliesi Giacomasi Souza aponta que esse ajuste fino é o que diferencia um projeto bioclimático bem resolvido de uma aplicação genérica do conceito: o mesmo elemento de sombreamento que funciona em um litoral úmido pode não ter o mesmo efeito em uma região de clima mais seco, com amplitude térmica maior entre o dia e a noite.
Bioclimática como resposta, não como modismo
Chamar de tendência algo que resolve um problema real de conforto e consumo de energia pode até ajudar a popularizar o conceito, mas reduz o alcance dele. Arquitetura bioclimática não depende de estar em alta para continuar fazendo sentido: depende do clima existir, e o clima não muda de estação para estação editorial, tampouco desaparece quando a moda passa para outro assunto.
É por isso que Daugliesi Giacomasi Souza trata o clima como dado permanente do projeto, não como recurso passageiro: o que muda, de fato, é a atenção que cada geração de arquitetos e designers decide dar a algo que sempre esteve disponível, gratuito e ao alcance de qualquer projeto bem pensado.